segunda-feira, 24 de março de 2008

Software Livre: Caridade?!

Às vezes percebo, naqueles que pouco ou nada conhecem (e portanto não compreendem) o Software Livre (SL), uma certa discriminação. Para esses é difícil compreender que não se trata de uma questão de caridade, embora alguns realmente se colocarem como "fanáticos religiosos". Executivos resistentes precisam começar a enxergar que os modelos de negócio estão mudando. Existem outras formas de ganhar dinheiro (consultorias, treinamentos, serviços de valor agregado), além de vendendo licenças de um produto proprietário.

Não é à toa que muitas empresas tem bancado seus funcionários para trabalharem tempo parcial (às vezes, total), em projetos de código aberto. Ou até, como aconteceu com o Eclipse, simplesmente "doam" milhares de linhas de código, atribuindo uma licença livre ao seu software. A Sun seguiu o rastro, comprou a empresa que construiu o NetBeans e vem investindo pesadamente nos últimos anos. Não satisfeita abriu o Java como GPL e recentemente comprou a MySQL por 1 bilhão de dólares (veja em seu blog o que o próprio CEO fala sobre a aquisição). Quem ganha com a competição? Nós, desenvolvedores, com certeza. Mas você acha que eles não?!

Eric Raymond diz que "Para resolver um problema interessante, comece achando um problema que é interessante para você.". Pode parecer um pouco egoísta, mas faz bastante sentido. Se eu resolvo cooperar com algo é porque tenho interesse naquilo, serei beneficiado com os resultados. Não lhe parece lógico que a maioria dos desenvolvedores do Linux sejam também usuários? Quem ganha se o Linux evoluir rapidamente? Em primeiro lugar, eles próprios!

Apresentando essa visão "interesseira" não estou, de forma alguma, minando o princípio da colaboração e ajuda mútua. É claro que também tem muita gente imbuída - e isso deve ser louvado - do espírito social e investem seu tempo em fazer algo em benefício do próximo. Mas, no mundo do software, minha impressão (principalmente com relação à Bahia) é que, em geral:

1) Ainda somos "sanguessugas" - queremos usar SL, mas pouco contribuímos. Queremos participar de eventos, mas não ajudar a organizar.
2) Desenvolvedor é um "Ser Oso" - orgulhoso, vaidoso e teimoso. Tende a se achar melhor do que os outros, não gosta de receber crítica e termina "fazendo do meu jeito que é melhor". Conclusão: Retrabalho e pouca colaboração.
3) Gastamos muito tempo precioso - ninguém reclama em passar horas no Orkut, MSN ou jogando PlayStation. Nada contra a diversão, mas para participar ativamente de projetos/comunidades livres, "não tenho tempo".
4) Queremos tudo mastigado - vejo isso nas empresas. Muitos esperam sentados que caia do céu um treinamento que, quando chega, "foi muito fraco". Estudar constantemente é essencial e precisa de vontade pessoal. Hoje todo mundo tem no mínimo pós-graduação (falo do "canudo", porque o conhecimento, sei não...). Então, qual o seu diferencial?
5) Somos condicionados a competir, não a colaborar - Na escola, família, colégio, vestibular, universidade, temos que ser "os melhores". Trabalhar bem em equipes, sem subir nas costas dos outros, é um grande desafio. Quando algo dá errado ouvimos "a minha parte está ok" ao invés de "vamos trabalhar juntos na solução".

Então, fica aqui essa análise: De um lado o mundo está mudando e as principais empresas de TIC do mundo estão atentas (e agindo) quanto a isso. Do outro, continuamos como dizia Raul: "com a boca escancarada cheia de dentes, esperando a morte chegar". Profissionais diferenciados, além de todo o know-how técnico, desenvolverão mais cedo as habilidades necessárias para atuar nesse novo cenário. E quando os gerentes perceberem o que está ocorrendo, aí sim as empresas começarão a mudar significativamente.

4 comentários:

Rodrigo Fagundes disse...

Para jogar mais lenha na fogueira...

As empresas - principalmente de software - não conseguem diferenciar Responsabilidade Social de caridade. Até que ponto o software livre pode representar uma fatia de responsabilidade social? Seriam apenas os telecentros as iniciativas nessa área? Ou podemos considerar softwares que alavancam os negócios e o crescimento econômico do país como uma ação socialmente responsável?

Todo mundo sabe que o crescimento econômico cria condições para geração de empregos e renda, possibilitando também melhoria em outras áreas como educação. Então por que não enxergar a conexão das coisas? Por que insistimos em "tapar o sol com peneira" e nos enfurnarmos dentro de uma especialização burra quando a tendência mundial é do conhecimento especializado E transdisciplinar?

Agora devolvo a pergunta crucial: o que é "caridade"? :)

Tom Zé disse...

Olá Serge,
Tudo certo?
Estive lendo seu post, concordo com suas colocações, caso você permita-me fazer alguns adendos, somos condicionados também por uma educação neoliberal, na realidade não somos neoliberais geneticamente falando, mas por estar imerso e já termos nascido nisto, daí nos preocuparmos apenas com o "imediatismo" ou o "determinismo".

A ideologia capitalista pulsa em nossas veias, bombeados pelo querer mais, pelo acumular. Competimos com todos, com muitos, com nossos parentes e familiares e encaramos tudo como natural, um behaviorismo sem reflexões. Isto impede que algumas cortinas se abram aos nossos olhos e deixe-nos ver as múltiplas visões, formas e possibilidades que estão podem ser agregadas ao movimento.

Sociólogos como Sérgio Amadeu Silveira (Brasil) e Manuel Castells (Espanha), tem se preocupado, através de apresentar pesquisas relativas ao Software Livre, porém acho que poucos às conhece.

Fiz uma especialização onde apresentei a relação das características do software livre com a teoria de David Ausubel (A Teoria da Aprendizagem Significativa), com a pesquisa tentei relacionar as características do software livre como "subsunçores" para se obter no processo ensino-aprendizagem a "Aprendizagem Significativa". Hoje estou em um mestrado onde pesquiso o software livre Moodle em uma Universidade pública. Tento apresentar através da academia, cientificamente falando, que software livre ultrapassa questões relacionadas a informática, isto por várias questões que não as colocarei aqui, pois ficaria um e-mail bastante extenso (alias já está).

Não sei se em algum momento poderiam discuti mais sobre tudo isto, mas se tivermos oportunidade, poderemos fazê-lo. Nossos focos ou "objetos" são diferentes, entretanto por tratar-se de software livre, creio que tenhamos um ponto em comum. Neste fim de ano ou inicio de 2009, deverei estar defendo minha dissertação trazendo para as políticas públicas o trato para as questões relacionadas ao SL, pois assim abrimos possibilidades de participações do Estado, da Sociedade Civil e Grupos Sociais, mesmo neste mar neoliberal, capitalista, individualizador, competitivo, dinâmico, mas sobretudo um processo humano e que se bem pensando, utilizado, trabalhado, refletirão para à sociedade (ou não) os resultados. A Bahia e o Brasil apresentam potenciais superiores aos europeus no que se refere ao desenvolvimento da informática, como várias pesquisas apresentam, mas onde estamos?

A gestação do novo, na história, dá-se, freqüentemente, de modo quase imperceptível para os contemporâneos, já que suas sementes começam a se impor quando ainda o velho é quantitativamente dominante. É exatamente por isso que a "qualidade" do novo pode passar despercebida (Milton Santos, 2000).

Grande abraço,
Tom Zé

Serge Rehem disse...

Até agora esse foi o post que gerou mais discussões e contribuições interessantes. Vieram outros pontos de vistas que estão me fazendo pensar e enxergar as coisas de forma mais abrangente.

Em uma dissertação de mestrado (uma linha mais antropológica, a partir de uma pesquisa feita no Projeto GNOME), tem uma sessão que me chamou a atenção em especial, entitulada "Um trabalho a troco de nada?". Deixo aqui o link, enquanto fico matutando sobre como será o próximo post. Até!

Rander disse...

Sergão parabéns meu amigo, este post está muito bom. Concordo com tudo que vc citou, principalmente do comportamento dos desenvolvedores de salvador.

Abração.

Rander