sábado, 1 de março de 2008

V0

"Libere cedo. Libere frequentemente. E ouça seus fregueses.". Para mim esse é um dos trechos mais inteligentes e profundos da Catedral e o Bazar e se aplica a diversos casos, não só a produção de código. Analisemos uma situação típica nas empresas, para interpretar o conceito.

Está em elaboração um novo processo interno, inspirado em algum modelo de referência ou conjunto de melhores práticas (PMBOK, CMMI, ITIL, XP ou RUP, por exemplo). Até aí nenhum problema, afinal modelar/reavaliar processos é fundamental para uma organização em crescente melhoria. Mas como sua empresa o faria? Provavelmente contrataria uma consultoria e colocaria para trabalhar junto com meia dúzia de "papas do conhecimento", pessoas com (teoricamente) vasto conhecimento sobre o assunto, ou pelo menos gosto por aprendizagem. Depois de alguns meses (às vezes, anos), a primeira versão está disponível para uso. Políticas, normas, diagramas, manuais de procedimentos, templates de artefatos, tudo pronto! Agora podemos usar! Palestras, reuniões de sensibilização, equipes de auditoria, grupos de trabalho, todo mundo mobilizado (espera-se!) para internalizar a nova realidade. Sucesso absoluto?! Raramente...

Quantas vezes você viu programas desse tipo fracassarem? Qual são normalmente as maiores falhas? Esquecem de ouvir as pessoas! Aqueles que de fato executam os processos e teriam muito a contribuir. Estabelecem uma divisão entre os teóricos ("aqueles que definem os processos mas não sabem nada do dia a dia") e os práticos ("os que trabalham"). Nem 8 nem 80, né!? Os dois tipos de perfil são necessários, mas eles precisam trabalhar juntos.

Voltemos. Se ao invés de trabalharem "trancados" e só envolverem as pessoas com um processo teoricamente pronto, fosse liberada uma primeira versão ainda bem insipiente (libere cedo), mas que permitisse a crítica e validação do corpo funcional, quantos problemas seriam evitados?

Com várias revisões coletivas (libere frequentemente), o quão rápido chegaríamos numa primeira versão estável? Aliás, seria necessário esperar tanto para começar a praticar? Pensou nos benefícios em partir para avaliar a prática executando um piloto em um departamento ou projeto?

E o principal, oferecendo (e incentivando) a oportunidade de contribuição das pessoas (ouça seus fregueses) o quanto se queimam etapas? As pessoas começam a conhecer, praticar, identificar falhas e pontos de melhoria e aos poucos passam a acreditar, pois sentem-se comprometidas com o resultado. Como está no texto de Raymond, os usuários são constantemente mantidos "estimulados pela perspectiva de estar tendo um pouco de ação satisfatória do ego, recompensados pela visão do constante (até mesmo diário) melhoramento do seu trabalho.".

Portanto, precisamos estimular a cultura da Versão Zero. Até pela velocidade com que as coisas mudam, não dá para esperar modelar o mundo perfeito para depois divulgar e envolver o restante da empresa. "O bom é inimigo do ótimo", mas começando pelo "quase bom" (V0) - liberando cedo, frequentemente e ouvindo seus fregueses - é possível chegar lá!.

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